17 setembro, 2012

Um dia, num mês,


                
- Eu estou bêbado!

Foi isso que ele disse, antes de levantar e ir ao banheiro cambaleando entre as paredes. Todos riram da situação e não estavam menos bêbados. Adentrou o banheiro que já cheirava mal. Tinha cheiro de urina dos embriagados. E não se aguentou sobre as pernas. Ajoelhou defronte ao vaso bege e vomitou. Vomitou tudo que tinha ingerido de ruim. O álcool acabara de ser consumido, e ele na pouca consciência que ainda lhe restava levantou e andou. Segurando a cortina, ou a toalha pendurada no porta toalhas. Retomou o equilíbrio. Chegou ao espelho. Jogou água no rosto e esfregou as pálpebras. Bochechou um pouco de enxaguante bucal e baforou nas próprias mãos sentindo o cheiro do hálito. O gosto da cerveja ainda nas papilas gustativas, deixou sua boca com sabor de remédio infantil.  E olhou no espelho e falou pra si mesmo:
           
            - Você não vai conseguir ficar pior que isso. Agora é a hora.

Se encarou no espelho. Olhava dentro de olhos negros que queriam chorar, e que quase conseguiram evitar uma lágrima que escorreria, mas fora enxuta. E continuou falando só:
            - Você é um babaca por ter que encher a cara pra fazer isso, mas já que o fez, use a coragem que você não diz ter mas que acha que o álcool te dá!

E saiu. Abriu a porta do banheiro, segurava nas paredes do estreito corredor e as coisas assim como seus movimentos parecia tudo mais lento do que o habitual. Olhou para o relógio pendurado na parede. Demorou uns trinta segundos para decifrar os ponteiros. Ainda havia tempo, pouco passara das 10 da noite. Passou por todos que sentavam no chão ao lado de garrafas de vodcas baratas, vinhos importados e litros já pela metade de cachaça. Todos estavam bêbados para notar que ele não estava bem. E isso em aspectos físicos e psicológicos. Todos riam entre si, bebiam descontroladamente e sem a moderação indicada. Ouviu alguém perguntar se ainda iria brincar com o grupo um daqueles joguinhos etílicos. A resposta foi seca com o indicador que balançava de um lado ao outro. As palavras não sairiam. Seguiu até a varanda, talvez o ar não o ajudasse a pensar, mas diminuiria significantemente a sua sensação de enjoo. Encostou as costas na parede e deslizou sua camisa de poliéster com a intenção de sentar no chão. Embora ébrio, conseguiu tal façanha. E pôs o celular para fora do bolso, que com o a cerveja ingerida parecia mais apertado e profundo naquele momento. Tateava o teclado. Bloqueava e desbloqueava as funções. Hesitava o tempo todo. Pensava se deveria ou não se importar naquele momento. Percebeu a presença de alguém na varanda também sentada. Estava escuro. Não queriam luz. Ela queria paz e um cigarro. Ele queria ar e coragem. Ela sorriu e chamou o pelo apelido carinhoso que ele tinha. E fora tão carinhosa, utilizou tal vocativo pelo diminutivo. E apagou o cigarro e abriu os braços. Ele sorriu. Ela ofereceu o colo e ele deitou. Ele voltou a mexer no celular. Ela alisava seus cabelos e notou sua inquietação. Perguntou:

- O que foi Paulinho?
            - Nada, não. Tô bêbado.
            - Seu corpo diz isso, seu olhar não.
            - Meu olhar anda fosco já faz um tempo.

Ela acariciava seus cabelos, ele passeava seus dedos por entre o touchscreen do seu novo celular. Procurava um nome. Na verdade procurava uma solução. Alguém que confiasse o bastante, ou que valorizasse a opinião, mesmo que não a seguisse. Alguém que dissesse o que fazer ou não fazer. Dar a coragem necessária ou retirar o excesso E tateou nome a nome. Abria e via os nomes. Olhava os números de um por um. Letra a letra em ordem alfabética. Desistiu na letra D. Pensou em guardar o celular, e até fez o movimento. Teve uma luz, e como nos desenhos animados os olhos deles arregalaram. Pensou em Luiza. Pegou o telefone e antes que pensasse mais ligou. O telefone não tocou. Estava simplesmente desligado. Luiza não atenderia. Era um sábado a noite, por isso a perdoou. Não sem antes ter uma crise de falta até de amigos que sempre estiveram lá. Todos tinham se tornado desnecessários por fim, embora, e muito embora os amigos sempre foram fundamentais. “Não importa” pensou consigo mesmo. Voltou a si quando notou os carinhos na cabeça. Não estava sozinho. Pensou em jogar o celular pela varanda, mas era um segundo andar e ele se espatifaria. Tomou a decisão. Nem era tão corajoso assim. Não ligaria mais pra ninguém. Não da agenda. O número de que ele precisava não saiu da sua cabeça desde a primeira vez que ele discou. E dessa vez digitaria uma última vez. Ou penúltima. Não sabia. Dentro do bolso retirou um papel, ensaiava frases, versos. Foi interrompido:

            - O que escreves e que inquietação é essa?   
            - Procuro palavras pra um SMS.
            - Pra quem?
            - Alguém que morreu pra mim, ou que eu queria que morresse dentro de mim.
            - É ela?           

Nada disse. Já tinha dito com a lágrima que descia do seu rosto. As frases se montavam e desmontavam o tempo todo. E começou a digitar no celular:
“Parabéns. Primeiro me desculpa por não ligar. Estou bêbado, mas não tenho coragem. Por fim, isso não me faria bem. Felicidades, sucesso, tudo de bom. Te amo. Ainda. E muito. P.S: Queria te ver sorrindo hoje.”. Hesitou. Apertou enviar e cancelar várias vezes. Enviou. E chorou. Muito. A garota que oferecia o colo enxugou suas lágrimas. E ele dormiu. Dormiu e acordou de madrugada. Com frio e o celular na mão piscando. Uma ligação perdida, ou uma mensagem. A segunda. E dizia “Oi. Eu preferia que você tivesse ligado. Eu entendo porque você não veio, mesmo assim obrigada pela mensagem.” E ele não ligou, não ligaria também. Culpou-se. Perdoou-se em seguida. E não se falariam mais. E chorou. E dormiu no colo da garota. Pensou em respostas durante a rápida insônia, lembrou-se da eternidade do amor que pregava, do sorriso ainda recente que jamais veria e se visse tivesse a oportunidade de ver evitaria. Acordou já num colchão inflável na sala, a bela moça que acariciava seus cabelos e que o viu chorar dividia com ele o local para dormir. De lado, com uma das mãos sobre o peito dele. Retirou a mão com cuidado pra não acordá-la. Levantou atrás de água para a ressaca do dia anterior. Mais desesperadamente procurou o celular, e encontrou ao lado do colchão. Pegou o celular, recomeçando a ensaiar frases na cabeça. Mas a frase que escreveria sairia da coração. E assim escreveu: “Eu te amo muito, mas não posso mais gostar de você, não posso mais me apaixonar por você porque não posso ter você. Queria te ligar. Mesmo. Mas as palavras não sairiam. Nada impensado presta. Não acredito mais em amor, mas se existir, o meu é seu. Não me liga mais, nem responde essa mensagem. Não se importe. Adeus. Te amo”. Falar-se-iam novamente depois de tempos?Ver-se-iam novamente? Amar-se-ão novamente? Amarão outros?  Isso ficará sem resposta. 

P.S: Não queria uma imagem triste!


2 comentários:

Anônimo disse...

Muito bom! Adorei.

carol manfredinni disse...

maravilhosoooo!!!
fodástico,aameeii